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Católicos, Crentes e a Bíblia:

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Pe. José Antônio Pires de Almeida OMI

Houve uma época em que eu achava que as polêmicas entre católicos e crentes eram devidas basicamente a interpretações diferentes da bíblia. Inclusive eu pesquisava diversas passagens da mesma para defender a doutrina católica dos ataques evangélicos. Pensava que, com paciência e erudição, a "verdade" da nossa igreja facilmente seria demonstrada. Até que o Pe. Thomas Delaney OMI, que foi meu professor no antigo curso clássico e quem já citei em outro artigo, forneceu em uma de suas aulas uma explicação mais básica e fundamental.

Antes de abrir o livro sagrado é preciso estar de acordo sobre o seguinte: Quem vem primeiro, a bíblia ou a Igreja? Quem tem autoridade sobre quem? A bíblia sobre a Igreja ou a Igreja sobre a bíblia? A doutrina católica afirma que a autoridade da Igreja confirma a veracidade das escrituras enquanto os crentes afirmam que é a Bíblia que fundamenta a Igreja.

Nos primeiros tempos do cristianismo circulavam entre as comunidades cristãs diversos evangelhos, além dos quatro que conhecemos. As epístolas também eram muitas. Essa grande quantidade de documentos, alguns fantasiosos e outros divergentes, provocavam confusão e polêmica entre as igrejas estabelecidas.

Com a expansão do cristianismo surgiu a necessidade de haver um consenso sobre quais os livros que deveriam ser considerados inspirados por toda a Igreja. Começaram as tentativas de se estabelecer o cânon (catálogo dos livros que são reconhecidos como divinamente inspirados) definitivo. A primeira lista de que se tem notícia é a de Santo Atanásio, bispo de Alexandria, que em 367 publica um documento relacionando os livros do Novo Testamento considerados autênticos. Em 382 o papa Damaso confirma e decreta a lista de Atanásio como verdadeira. O Concílio regional de Hipona (África) de 393 também reconhece os 27 livros como verdadeiros e finalmente, em 393, o Concílio Ecumênico de Cartago estabelece o cânon definitivo dos livros do Novo Testamento. Os outros escritos que circulavam nas comunidades cristãs e que não faziam parte dessa lista foram considerados apócrifos, isto é, não inspirados. Infelizmente para prejuízo da história grande parte deles foram definitivamente perdidos.

Quanto ao Antigo Testamento o processo também foi complicado. Nos primeiros séculos antes de Cristo os judeus tinham uma próspera comunidade estabelecida na cidade de Alexandria, no Egito, onde se falava grego. Com o passar do tempo a maioria deles foi esquecendo o hebraico e só entendiam o grego. Para que não se perdesse o contato com os livros bíblicos um grupo de setenta sábios traduziu o Antigo Testamento nesta língua. Essa tradução ficou conhecida por septuaginta ou septuagésima (dos setenta). Quando São Jerônimo fez a primeira tradução da bíblia para o latim, conhecida como Vulgata, baseou-se nesta tradução.

Posteriormente, com a destruição de Jerusalém no ano 70 por Tito, os judeus se espalharam e tentaram recuperar o texto hebraico original de sua Bíblia. Recorreram ao chamado Cânon hebraico massorético. Chamava-se assim o trabalho crítico sobre a grafia e a leitura correta da Bíblia hebraica, feito por doutores judeus, para determinar a forma original e correta do texto escrito e evitar alterações em sua transmissão. Esta escola excluiu todos os livros que foram traduzidos em grego mas cujos originais em hebraico não foram encontrados. Lutero, quando da reforma protestante em 1530, além de também banir estes livros do Antigo Testamento, retomou a numeração massorética dos salmos, diferente da septuagésima.

Doutrinariamente falando, estes livros que ainda hoje os crentes consideram apócrifos, não possuem nenhuma formulação ou tese contrária aos princípios da fé cristã ou hebraica. A única ressalva é em relação ao Livro de Tobias, que aponta o valor da esmola como um dos meios de salvação. A reforma protestante afirmava que o homem se salva única e exclusivamente pela fé em Jesus Cristo e que suas obras não têm nenhum valor ou mérito para ganhar esse dom. Lutero tentou excluir (sem conseguir) a carta de Tiago no cânon do Novo Testamento porque nela afirma-se que uma fé sem obras é uma fé morta. Inclusive observa-se tanto nos pregadores televisivos como no das igrejas evangélicas que a epístola de Tiago é praticamente ignorada.

Então, o impasse se dá do seguinte modo: Para nós, a chamada escritura sagrada é verdadeiramente inspirada por Deus porque a comunidade cristã, nos primórdios do cristianismo, assim o reconheceu e continua reconhecendo. O drama protestante é que, sendo a bíblia a única fonte de autoridade da igreja, qualquer cidadão pode proclamar-se inspirado e fundar uma. Não existe nenhuma autoridade central como o papado para garantir a unidade dos que crêem. Veja-se a proliferação de igrejas pentecostais, todas se proclamando inspiradas na bíblia mas se opondo ferozmente entre si. Elas praticam aquilo que Bento XVI chama de "autofagia".

João XXIII fez um mea culpa da intolerância católica para com os protestantes, propondo inclusive a retomada do diálogo (ecumenismo). Encontrou pouca ressonância, sendo que a maioria das igrejas evangélicas recusou e continua recusando qualquer tentativa de aproximação.

Portanto, sendo que minha intenção nesse artigo foi mais informativa que doutrinal, os católicos não devem ficar procurando passagens da bíblia para contrapor afirmações dos crentes. Além dos livros sagrados nós reconhecemos como depósitos autênticos de fé a tradição e a autoridade da igreja, embasadas em dois mil anos de experiência e de história. De outra forma cairíamos naquilo que alguns definem como bibliolatria, ou seja, adoração da bíblia. Para nós ela é fonte de inspiração e alimento espiritual e não manual de normas e regras de como ser cristão. Algumas correntes mulçumanas também só aceitam o Alcorão como indicação normativa de vida. Os resultados desta postura pairam tenebrosamente no princípio deste terceiro milênio.
 
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