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Reflexões Natalinas:

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"A terra é o estrado para teus pés, que repousam aqui, onde vivem os mais pobres, mais humildes e perdidos".

Quando tento inclinar-me diante de ti, a minha reverência não consegue alcançar a profundidade onde os teus pés repousam, entre os mais pobres, mais humildes e perdidos.

O orgulho nunca pode se aproximar desse lugar onde caminhas com as roupas do miserável, entre os mais pobres, mais humildes e perdidos.

O meu coração jamais pode encontrar o caminho onde fazes companhia ao que não tem companheiro, ente os mais pobres, mais humildes e perdidos".

(Tagore)

Há uma tendência espiritual presente em alguns discursos pastorais carregados de boas intenções, mas ignorando situações básicas da natureza humana e da vida social. Inúmeros pregadores, muitos bem-intencionados, nos convidam a "olhar para o alto" sem levar em conta as mazelas da vida terrena. Isso acontece principalmente na época natalina. É uma espiritualidade que nos promete paraísos imediatos que se supõem possam ser alcançados a custa apenas de vontade e esforço.

Os conselhos oferecidos nos propõem autodomínio, amabilidade e amor desinteressado, negando os lados sombrios do ser humano manchado pelo pecado original. Ignora as situações sociais excludentes como se o sucesso financeiro-profissional fosse apenas uma questão de fé. Em muitos cristãos essas admoestações, ao invés de oferecer conforto, podem causar angústia, divisão interna e conflitos.

Os monges, que nos primórdios do cristianismo se dirigiam ao deserto para contemplação e oração, primeiro lutavam com os demônios da vida social (porque eles "fugiam" do convívio humano?) e depois com seus próprios demônios interiores. Eles diziam que o caminho que conduz ao crescimento espiritual começa na pessoa e no conhecimento de suas paixões. Um caminho que pressupõe o autoconhecimento. Sem a consciência, por mais precária que seja, de nossa própria realidade interna e das redes de relações estabelecidas, corre-se o risco de pensar a respeito de Deus a partir de meras projeções.

Um antigo patriarca chamado Poimém recebeu em sua cela um teólogo que queria seus conselhos. O tal teólogo discorreu sobre a vida espiritual, sobre as virtudes teologais e sobre o mistério da trindade de Deus. Poimém manteve-se no mais absoluto silêncio. Quando o teólogo partiu um dos seus discípulos inquiriu sobre a razão desse silêncio e Poimém respondeu: "O teólogo está nas nuvens e fala de coisas espirituais. Eu sou aqui de baixo e falo e coisas terrenas. Se ele tivesse me falado das paixões da alma ter-lhe-ia respondido, mas como fala sobre coisas espirituais não sou capaz de compreendê-lo". Este fato está relatado no livro "O céu começa em você", de Anselm Grun, publicado pela Editora Vozes no ano 2000.

O caminho do desenvolvimento espiritual de Jesus, Maria e José começou em Nazaré e Belém. As dúvidas de Maria sobre o teor da anunciação, a hesitação de José em recebê-la como esposa, o nascimento do menino na adversidade da pobreza, a fuga precipitada para o Egito e as sombrias previsões de Simeão. Foram esses os acontecimentos vividos intensamente e com os quais a Sagrada Família teve de lidar. A partir dessa realidade difícil foi que eles começaram a compreender em profundidade os desígnios de Deus sobre suas vidas. E instaurou-se a esperança.

Os caminhos aparentemente fáceis da teologia da prosperidade são fascinantes. Deus passa a ser um provedor inesgotável e não se cogita da mística envolvida no penoso processo de autoconhecimento e do encontro pessoal com nosso lado sombrio. Esse excesso de entusiasmo leva-nos a repetir Ícaro que, aproximando-se demais do sol, desabou por terra porque suas asas eram fragilmente coladas com cera e se derreterram. É uma teologia que propõe olhar o natal como uma festa onde se exclui os sofrimentos de José e Maria, da precariedade da manjedoura, da morte dos inocentes e da fuga para o exílio. É abstrair o natal esquecendo-se das grávidas solteiras, das crianças nascidas nas piores condições materiais, da morte de recém-nascidos num sistema público de saúde falido e do êxodo forçado de milhares de pessoas.

A consciência do pecado pessoal e comunitário leva-nos a tocar o mais profundo de nosso eu. Somente quem estiver preparado para entrar em contato e abraçar seu aparente fracasso, experimentará o Deus verdadeiro como Jesus experimentou a humanidade verdadeira; nascendo e vivendo como e com os mais pobres e miseráveis. Quanto mais próxima uma pessoa chega de Deus tanto mais humilde ela se torna e, quanto mais humilde, mais submissa a todos. E ser submisso a todos, na dimensão teológica, é basicamente não prestar atenção e não se incomodar com a crítica. A espiritualidade moralista reage, por exemplo, contra os sentimentos "negativos" que porventura sinto, reprimindo-os tenazmente; já que dizem que como cristão eu devo ser sempre amável e equilibrado não podendo jamais ter tais sentimentos. A espiritualidade inspirada no natal aponta para outra direção: eu devo perguntar o que Deus está querendo me dizer com as minhas perplexidades. É possível que nelas eu encontre a criança frágil que há em mim, parecida com aquele menino deitado no coxo dos animais. Sendo vista desta maneira ela transforma-se numa energia para estar mais perto de Deus.

Onde está o maior de meus problemas ali está também a maior de todas as chances, o meu tesouro. É ali que eu entro em contato com minha verdadeira essência. E é ali que alguma coisa poderá ganhar vida e desabrochar. O caminho para Deus passa pelo encontro comigo mesmo, pelo aparente rebaixamento para dentro de minha realidade humana, pelo fechamento da porta de todas as hospedarias e tendo de ir dormir numa gruta suja que serve de abrigo aos animais.

Dorotéo da Galiléia, outro monge da antiguidade, dizia: "Teu entulho seja teu pedagogo". Deus nos educa através do fracasso, através de nossos entulhos e da falência social de seu povo. Ele nos conduz pelos caminhos da humildade e é somente este caminho que nos conduz a ele de uma forma livre e consciente.

Não vamos tornar nosso cristianismo, que é essencialmente libertador, em mais um fardo. Jesus disse; "Quero misericórdia e não sacrifício" (Mt 9,13). A honestidade pessoal e comunitária é o começo de uma fascinante viagem ao encontro do transcendental. Que possamos aproveitar as celebrações natalinas para que aquele menino frágil e carente nos ensine a fazer de nossa vida um constante renascimento.
Pe. José Antônio Píres de Almeida OMI
 
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