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PAPA BENTO XVI (Por Pe. Pires):

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Alguns amigos, inclusive e principalmente clérigos, quando comentam sobre o atual papa dizem que ele é conservador. Vivemos numa era em que a academia, as artes e a todas as ciências humanas vicejaram sobre a ótica chamada “progressista”. Tivemos pouca ou nenhuma chance de conhecer o chamado “pensamento conservador”, tanto pela exigüidade de textos publicados como pelo patrulhamento ideológico. Agora que o muro caiu e os ânimos serenaram este pensamento conservador cria coragem e aparece. Apesar de ele já ter se manifestado com desenvoltura na economia, nas outras áreas ainda está assim meio tímido. Um dos formuladores dessa vertente de pensamento é Luiz Felipe Pondé, que lançou o livro “Do Pensamento no deserto".

Para ela a modernidade é a crença na promessa de que a razão dá conta da realidade e é capaz de reformar a vida e a sociedade, melhorando a condição do ser humano. Esta certeza iluminista determinou a teoria e a prática do Ocidente desde o fim do século 18. É a confiança de que a razão é o instrumento único e ideal para o conhecimento.

O pensamento conservador não partilha dessa confiança e não devemos romper com o passado como se a adolescência fosse o paradigma da vida. A certeza iluminista e cartesiana fala de um ser humano idealizado, que não existe. A natureza humana é alguma coisa da qual você deve aproximar-se com muito cuidado e que sempre subentende certo mistério.

A escola conservadora não acredita na capacidade do homem de se auto-inventar e se auto-aperfeiçoar. Ele é um animal essencialmente orgulhoso, utilitarista, feroz e hipócrita. O ser humano é agonia e não alguma coisa que tenha solução. A vida é quase sempre uma porcaria e não são os cientistas sociais e antropólogos que nos ajudam a entendê-la, mas Kafka e Dostoievski. Eles nos mostram por que, apesar de quase todas as provas em contrário, a maioria das pessoas insiste em viver. O problema humano é sempre moral, e não político ou social.

Um desafio de hoje é a sobrevivência do ser humano ao totalitarismo da idéia de que o "homem é bom" e a de que "o mal é contextual". O ser humano ainda é capaz de perceber, apesar de Rousseau, que o mal está nele. Se dissolvo o mal num sistema social então não sou mal. O mal é concreto em toda parte, embora às vezes tenhamos dificuldade em defini-lo. O recalque do mal serviu para que fosse construída uma neurose narcísica que atormenta a humanidade.

O pensamento conservador deixa um gosto amargo de fel. A vida é um risco eterno, o ser humano é uma espécie precária, violenta e atormentada pela falta de sentido e que fracassou na utopia idealista do progresso. Tomamos sempre de dez a zero da vida e o que caracteriza a modernidade é a utopia de que vamos organizar a agonia. Não vamos!

Bento XVI na sua exortação apostólica SACRAMENTUM CARITATIS (O Sacramento do Amor) prega o retorno do latim e do canto gregoriano, desqualifica a confissão comunitária e critica padres que se colocam como “protagonistas da ação litúrgica”. No campo moral reafirma o veto ao aborto, à eutanásia, às uniões entre homossexuais e comparou o segundo casamento entre os católicos a uma “praga social”. Alguns tradutores se embolaram para dizer que “praga” significaria “chaga”, “ferida”, - mas parece que o pontífice quis dizer “praga” mesmo.

Bento XVI formou-se na tradição católica que busca a reforma interior do ser humano, cuja natureza é preciso investigar a fundo, como fez Santo Agostinho. Bento XVI é um agostiniano por excelência. Ele considera que a natureza humana é imperfeita e padece de uma desordem que precisa ser contida. Isso soa de forma antipática aos ouvidos modernos, pois, dentre as idéias que definem a modernidade está a de que o homem tem condições de tomar consciência de seus limites e aprimorar-se.

Essa noção de “ser perfectível”, que pode melhorar com tempo e esforço, surgiu no século 13. Porém, a visão de Agostinho, como a de Bento XVI, é a de que natureza humana tem dificuldades estruturais e, se não for corrigida, se degenera.

Os que apontam apenas a questão da volta ao latim para criticar o papa são, entre outras coisas, uns simplórios. Os carismáticos e pentecostais se esbaldam em cultos onde se murmuram palavras incompreensíveis. Artistas de Hollywood vão à sinagoga e se comprazem ouvindo aquelas cerimônias cabalísticas em hebraico. Tem muita gente que se delicia com a musicalidade dos mantras em sânscrito num culto budista. Tudo lindo...! Já quando o papa fala da importância da recuperação histórica do latim e da harmonia do canto gregoriano é retrógrado!

Essa é a grande tragédia do catolicismo: ele engendrou a modernidade e ela o está devorando.

Os intelectuais mais expressivos de hoje formaram-se basicamente no universo marxista, entendendo a democracia política e social como alguma coisa ideal e insuperável. Mas para Bento XVI a modernidade não é um ponto de partida e sim um momento complexo na história da humanidade. Um momento que vem se desgastando.

Enquanto os modernos acham que é melhor distribuir camisinha, o papa diz que devemos enfrentar os impasses da família em desequilíbrio, onde as pessoas já não cuidam mais uma das outras. Enquanto nós acreditamos que o importante é ser feliz Bento XVI diz que é normal que o ser humano se sinta angustiado, porque ele está em pecado.

O papa leva a sério o fato de que o mal existe no mundo. Ele não é como nós, modernos, que achamos que o mal é um conceito derivado das injustiças sociais, por exemplo. O mal está posto no mundo, não é uma criação humana. O papa não é freudiano e nem marxista e, segundo as teologias para as quais ele se volta, o mal é da ordem da decomposição do ser.

Bento XVI entende que a experiência religiosa deve dialogar com a razão. A razão sozinha se degenera em ceticismo e niilismo. Talvez isso seja o grande beco sem saída das utopias: a crença de que a razão, apenas ela, consegue administrar a vida. Bento XVI acha que a razão, sem a angústia religiosa, acaba se transformando em algo risível, banal, niilista.

Quando houve aquela confusão dele com o mundo islâmico acharam que depois ele pediu desculpas. Não pediu. Foi e continuou sendo mal entendido. Ele queria dizer que, toda vez que se rompe o diálogo entre razão e fé, as vocações religiosas tornam-se sombrias.

Tudo isso é muito complicado, tanto que Luís Felipe Pondé afirma que não existe, no mundo teológico brasileiro, um interlocutor para encarar este papa. As melhores cabeças foram formadas na Teologia da Libertação e ainda vivem sob a ótica de uma visão sócio-analítica do mundo. É preciso conhecer muito da obra de Von Baltazar (teólogo suíço) ou de Henri de Lubac (teólogo francês), decisivos na formação do Bento XVI, mas quase desconhecidos por grande parte da formação teológica brasileira.

Muitos dizem que com essa postura Bento XVI afastará mais gente da Igreja. Quanto a isso é interessante retomar um pronunciamento da então cardeal Ratzinger, publicado pela revista 30 DIAS pouco antes do conclave que o elegeu: “A Igreja diminuirá de tamanho. Mas dessa provação sairá uma Igreja que terá extraído uma grande força do processo de simplificação que atravessou, da capacidade renovada de olhar para dentro de si. Porque os habitantes de um mundo rigorosamente planificado se sentirão indizivelmente sós. Descobrirão, então, a pequena comunidade de fiéis como algo completamente novo. Como uma esperança que lhes cabe, como uma resposta que sempre procuraram secretamente”.
Autor: Pe. José Antônio Pires de Almeida
 
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